sábado, 3 de outubro de 2009
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Palavras do Ministro Fernando Haddad
"Seguramente eram quase 10 horas da noite. Na verdade, às 9h30 da noite. O que ela relatou? Ela me disse: ministro eu gostaria de passar um e-mail pra o senhor, dando algumas informações porque nós fomos procurados por duas pessoas por meio de um celular oferecendo ao jornal um exemplar impresso da prova do Enem.
Evidentemente o jornal rejeitou a oferta, é óbvio. Mas a jornalista teve a habilidade de manusear o material antes de devolvê-lo a quem pretendia vendê-lo. Ao manusear o material, ela fixou alguns componentes da prova, sobretudo gráficos, que são as partes fáceis de serem memorizadas.
No e-mail que ela nos passou, ela fazia referência a esses aspectos: a figura da Mafalda, a bandeira do Brasil com o verde desmatado, como se fosse Amazônia desmatada, dentre outros elementos. Não lembro quantos, mas seguramente, três ou quatro elementos que poderiam nos dar segurança de que aquele material era autêntico. Porque evidentemente alguém poderia forjar uma prova alegando autenticidade com finalidade específica de angariar recursos. Vender uma prova falsa. E a jornalista, com muita responsabilidade procurou o Ministério da Educação para que nós pudéssemos checar a autenticidade do material.
Foi preciso ser feito uma mobilização, porque no Inep não existe prova impressa. O que existe é prova digitalizada em cofre e envelope lacrado; e para entrar no cofre no Inep ninguém consegue fazer isso sozinho. Tem um procedimento de segurança, câmaras filmando na sala de segurança do Inep quem entra e o que sai. E ninguém conseguia a prova impressa. O arquivo vai para a gráfica com segurança para ser impresso lá, com segurança para evitar o que acabou ocorrendo.
Por volta de uma da manhã, a equipe designada pelo presidente do Inep confirmou que os componentes descritos pela jornalista estavam presentes na prova. Como nem nós nem a jornalista tínhamos a prova escrita, precisávamos fazer um cotejamento da descrição do que ela viu nas mãos da pessoa que furtou a prova e os itens escolhidos do banco de itens para compor a prova.
Diante dessa constatação, o presidente do Inep, Reinaldo Fernando, ligou para a jornalista dizendo que as evidências eram muito grandes, que o material era autêntico e que não cabia outra medida a não ser anular a prova impedindo sua realização com o material que pode ter sido violado. Não sabíamos quantos quites tinham sido furtados, se eles tinham sido fotocopiados, digitalizados. Não havia a menor segurança para garantir que a prova poderia estar sendo disseminada por qualquer meio, eletrônico ou material.
Em virtude de colocar em risco a credibilidade e a segurança do exame, os indícios eram fortes para legitimar a decisão de cancelar o exame. Evidentemente que os itens dessa prova estão eliminados do banco e não serão usados. Não sabemos se a pessoa tinha uma ou duas provas, de sábado ou domingo. Na prova de linguagem, o que a jornalista conseguiu detectar visualmente correspondia ao que de fato a prova continha. Mesmo sem saber o que dispunha aquele que tentou vender o material, decidimos pelo adiamento.
Em parte agradecemos ao jornal Estado de S. Paulo, que impediu que a prova se realizasse. Se nós anulássemos a prova, ao invés de adiá-la, os prejuízos e transtornos seriam muito maiores. Todo mundo teria feito a prova e os resultados não poderiam ser utilizados. Quero registrar aqui um agradecimento ao jornal que teve uma postura de enorme responsabilidade com assunto de interesse público, que afeta milhões de pessoas, e que soube fazer chegar ao Ministério da Educação informações que permitiram uma decisão que não podia ser outra.
Evitando que as pessoas se desloquem par aos locais de prova, eventualmente façam a prova, com todo o gasto de energia, emocional e intelectual e não venham a utilizar o resultado pela prova ter sido cancelada. O que ocorre em muitos casos de concursos públicos, de ter que ser cancelado depois da sua realização. Nós devemos isso á postura que a direção do jornal teve, que foi muito correta,d e interagir conosco em prol do interesse público.
Agora fizemos no MEC uma divisão do trabalho. O Inep tem que cuidar do Enem e vai passar em revista todos os procedimentos junto ao consórcio vencedor da licitação para garantir a realização de uma nova prova com novos índice s e o gabinete vai interagir tanto com o jornal quanto com a polícia federal para apurar as responsabilidades.
O inquérito na PF já está aberto a nosso pedido e vai ser capitaneado pele superintendência de São Paulo, onde ocorreu o encontro da jornalista com os vendedores da prova e a partir daí as investigações vão ocorrer. Fizemos um apelo para que todas as pessoas que tiveram contato com os fraudadores possam trazer informações relevantes para que a polícia possa fazer investigação mais rápida possível e responsabilizarmos os Que cometeram o delito de tornar essa prova pública antes de sua realização. Então é esse o procedimento:
O Inep tem que cuidar da realização da prova. Evidentemente, se colocando à disposição das autoridades, mas nós pessoalmente vamos, junto ao superintendente da PF acompanhar as investigações. Até porque eu entendo que o modus operandi dessas pessoas é bastante anômalo, eles estão se expondo anômalos, de uma maneira que eu entendo que possamos chegar aos autores do delito com alguma rapidez. E evidentemente essas pessoas, se puderem ser localizadas com o apoio da sociedade, daqueles que mantiveram contato com eles, evidentemente nós poderemos saber em que momento, em que etapa do processo houve a corrupção dos dados, que eram sigilosos até sábado, dia da aplicação da prova. Então, são essas as providências.
O consórcio foi chamado à Brasília. É um consórcio que foi o único participante da licitação. Nenhuma outra empresa participou da licitação".
Evidentemente o jornal rejeitou a oferta, é óbvio. Mas a jornalista teve a habilidade de manusear o material antes de devolvê-lo a quem pretendia vendê-lo. Ao manusear o material, ela fixou alguns componentes da prova, sobretudo gráficos, que são as partes fáceis de serem memorizadas.
No e-mail que ela nos passou, ela fazia referência a esses aspectos: a figura da Mafalda, a bandeira do Brasil com o verde desmatado, como se fosse Amazônia desmatada, dentre outros elementos. Não lembro quantos, mas seguramente, três ou quatro elementos que poderiam nos dar segurança de que aquele material era autêntico. Porque evidentemente alguém poderia forjar uma prova alegando autenticidade com finalidade específica de angariar recursos. Vender uma prova falsa. E a jornalista, com muita responsabilidade procurou o Ministério da Educação para que nós pudéssemos checar a autenticidade do material.
Foi preciso ser feito uma mobilização, porque no Inep não existe prova impressa. O que existe é prova digitalizada em cofre e envelope lacrado; e para entrar no cofre no Inep ninguém consegue fazer isso sozinho. Tem um procedimento de segurança, câmaras filmando na sala de segurança do Inep quem entra e o que sai. E ninguém conseguia a prova impressa. O arquivo vai para a gráfica com segurança para ser impresso lá, com segurança para evitar o que acabou ocorrendo.
Por volta de uma da manhã, a equipe designada pelo presidente do Inep confirmou que os componentes descritos pela jornalista estavam presentes na prova. Como nem nós nem a jornalista tínhamos a prova escrita, precisávamos fazer um cotejamento da descrição do que ela viu nas mãos da pessoa que furtou a prova e os itens escolhidos do banco de itens para compor a prova.
Diante dessa constatação, o presidente do Inep, Reinaldo Fernando, ligou para a jornalista dizendo que as evidências eram muito grandes, que o material era autêntico e que não cabia outra medida a não ser anular a prova impedindo sua realização com o material que pode ter sido violado. Não sabíamos quantos quites tinham sido furtados, se eles tinham sido fotocopiados, digitalizados. Não havia a menor segurança para garantir que a prova poderia estar sendo disseminada por qualquer meio, eletrônico ou material.
Em virtude de colocar em risco a credibilidade e a segurança do exame, os indícios eram fortes para legitimar a decisão de cancelar o exame. Evidentemente que os itens dessa prova estão eliminados do banco e não serão usados. Não sabemos se a pessoa tinha uma ou duas provas, de sábado ou domingo. Na prova de linguagem, o que a jornalista conseguiu detectar visualmente correspondia ao que de fato a prova continha. Mesmo sem saber o que dispunha aquele que tentou vender o material, decidimos pelo adiamento.
Em parte agradecemos ao jornal Estado de S. Paulo, que impediu que a prova se realizasse. Se nós anulássemos a prova, ao invés de adiá-la, os prejuízos e transtornos seriam muito maiores. Todo mundo teria feito a prova e os resultados não poderiam ser utilizados. Quero registrar aqui um agradecimento ao jornal que teve uma postura de enorme responsabilidade com assunto de interesse público, que afeta milhões de pessoas, e que soube fazer chegar ao Ministério da Educação informações que permitiram uma decisão que não podia ser outra.
Evitando que as pessoas se desloquem par aos locais de prova, eventualmente façam a prova, com todo o gasto de energia, emocional e intelectual e não venham a utilizar o resultado pela prova ter sido cancelada. O que ocorre em muitos casos de concursos públicos, de ter que ser cancelado depois da sua realização. Nós devemos isso á postura que a direção do jornal teve, que foi muito correta,d e interagir conosco em prol do interesse público.
Agora fizemos no MEC uma divisão do trabalho. O Inep tem que cuidar do Enem e vai passar em revista todos os procedimentos junto ao consórcio vencedor da licitação para garantir a realização de uma nova prova com novos índice s e o gabinete vai interagir tanto com o jornal quanto com a polícia federal para apurar as responsabilidades.
O inquérito na PF já está aberto a nosso pedido e vai ser capitaneado pele superintendência de São Paulo, onde ocorreu o encontro da jornalista com os vendedores da prova e a partir daí as investigações vão ocorrer. Fizemos um apelo para que todas as pessoas que tiveram contato com os fraudadores possam trazer informações relevantes para que a polícia possa fazer investigação mais rápida possível e responsabilizarmos os Que cometeram o delito de tornar essa prova pública antes de sua realização. Então é esse o procedimento:
O Inep tem que cuidar da realização da prova. Evidentemente, se colocando à disposição das autoridades, mas nós pessoalmente vamos, junto ao superintendente da PF acompanhar as investigações. Até porque eu entendo que o modus operandi dessas pessoas é bastante anômalo, eles estão se expondo anômalos, de uma maneira que eu entendo que possamos chegar aos autores do delito com alguma rapidez. E evidentemente essas pessoas, se puderem ser localizadas com o apoio da sociedade, daqueles que mantiveram contato com eles, evidentemente nós poderemos saber em que momento, em que etapa do processo houve a corrupção dos dados, que eram sigilosos até sábado, dia da aplicação da prova. Então, são essas as providências.
O consórcio foi chamado à Brasília. É um consórcio que foi o único participante da licitação. Nenhuma outra empresa participou da licitação".
Bastidores do vazamento do Enem
por Renata Cafardo Seção: Educação básica 14:42:23.
Meu telefone fixo tocou por volta das 15h30 de ontem e uma voz tremida do outro lado confirmou meu nome completo e avisou que queria falar sobre o Enem. Já havia recebido mais cedo um recado de alguém estava interessado em vender o gabarito da prova, que seria realizada por 4,1 milhões de alunos no fim de semana.
O homem disse pouco, preferia não falar ao telefone e queria um encontro ao vivo. Mas avisou que o que ele tinha era a prova toda, as 180 questões dos dois dias, já impressas. Eu falei que tinha interesse em verificar a veracidade do material e então marcamos para as 19h15 em um café perto do jornal.
A direção decidiu que eu fosse acompanhada de duas pessoas e então o editor do Ponto Edu, Sergio Pompeu, e o fotógrafo Evelson de Freitas, foram escalados para isso. Sentamos os três no café e esperamos. Não sabíamos nome algum ou rosto de quem procurar, mas um dos informantes chegou primeiro e nos identificou. O outro chegou poucos minutos mais tarde, com uma pasta cheia de papéis.
Segundo eles, o material tinha sido vazado por alguém em Brasília, no Inep/MEC. Eu pedi para ver a prova e eles a colocaram, sem cerimônias, na mesa do café. Estavam lá os logotipos do governo federal, das empresas contratas para organizar a prova, do Inep. Ao folhear a prova, não acreditava no que via. As questões tinham o perfil do Enem, um exame que cobra competências e habilidades, usa temas cotidianos. Vi lá tiras da Mafalda, do Garfield, trechos da Canção do Exílio e de uma reportagem da revista Veja. Tratei de decorar o máximo de questões possíveis.
Vi também a prova de matemática, mas as questões eram enormes, obviamente cheias de números, e desisti de tentar memorizá-las. Depois de dois minutos, um dos homens me tirou a prova das mãos. "Já viu demais", disse. Perguntei sobre a redação e eles se negaram a mostrar essa parte da prova.
Queriam dinheiro e deixavam claro isso. Pediram R$ 500 mil e tinham a convicção de que fariam o negócio com algum veículo de imprensa. Deixamos claro que o Estado repudiava esse tipo de comportamento, que aceitaríamos denunciar o vazamento desde que não pagássemos por isso. Eram homens simples, pareciam não ter qualquer experiência com provas ou conhecimento do sistema educacional do País. Os dois, por volta dos 30 anos de idade, viam no material que "tinha caído no colo deles" como uma "oportunidade única". Um deles tinha comportamento mais truculento, falava de maneira mais agressiva. O outro aparentava nervosismo, medo. "Não somos bandidos. Queremos nos livrar disso o mais rápido possível", dizia.
Saímos cheios de dúvidas do encontro. Já no jornal, a direção decidiu que entraríamos imediatamente em contato com o ministro da Educação, Fernando Haddad, e que nada seria publicado até que houvesse uma confirmação de que a prova que tínhamos visto era verdadeira. Durante as 21horas e 0h30 falei cerca de 10 vezes com o ministro, que prontamente nos informou as providências que estavam sendo tomadas (procura pelos técnicos do Inep, abertura do cofre para identificar a prova etc). Ele foi informado das questões que eu tinha memorizado.
Pouco antes da 1h da manhã veio a confirmação de que o Enem seria cancelado. A prova que tive em mãos era verdadeira.
Meu telefone fixo tocou por volta das 15h30 de ontem e uma voz tremida do outro lado confirmou meu nome completo e avisou que queria falar sobre o Enem. Já havia recebido mais cedo um recado de alguém estava interessado em vender o gabarito da prova, que seria realizada por 4,1 milhões de alunos no fim de semana.
O homem disse pouco, preferia não falar ao telefone e queria um encontro ao vivo. Mas avisou que o que ele tinha era a prova toda, as 180 questões dos dois dias, já impressas. Eu falei que tinha interesse em verificar a veracidade do material e então marcamos para as 19h15 em um café perto do jornal.
A direção decidiu que eu fosse acompanhada de duas pessoas e então o editor do Ponto Edu, Sergio Pompeu, e o fotógrafo Evelson de Freitas, foram escalados para isso. Sentamos os três no café e esperamos. Não sabíamos nome algum ou rosto de quem procurar, mas um dos informantes chegou primeiro e nos identificou. O outro chegou poucos minutos mais tarde, com uma pasta cheia de papéis.
Segundo eles, o material tinha sido vazado por alguém em Brasília, no Inep/MEC. Eu pedi para ver a prova e eles a colocaram, sem cerimônias, na mesa do café. Estavam lá os logotipos do governo federal, das empresas contratas para organizar a prova, do Inep. Ao folhear a prova, não acreditava no que via. As questões tinham o perfil do Enem, um exame que cobra competências e habilidades, usa temas cotidianos. Vi lá tiras da Mafalda, do Garfield, trechos da Canção do Exílio e de uma reportagem da revista Veja. Tratei de decorar o máximo de questões possíveis.
Vi também a prova de matemática, mas as questões eram enormes, obviamente cheias de números, e desisti de tentar memorizá-las. Depois de dois minutos, um dos homens me tirou a prova das mãos. "Já viu demais", disse. Perguntei sobre a redação e eles se negaram a mostrar essa parte da prova.
Queriam dinheiro e deixavam claro isso. Pediram R$ 500 mil e tinham a convicção de que fariam o negócio com algum veículo de imprensa. Deixamos claro que o Estado repudiava esse tipo de comportamento, que aceitaríamos denunciar o vazamento desde que não pagássemos por isso. Eram homens simples, pareciam não ter qualquer experiência com provas ou conhecimento do sistema educacional do País. Os dois, por volta dos 30 anos de idade, viam no material que "tinha caído no colo deles" como uma "oportunidade única". Um deles tinha comportamento mais truculento, falava de maneira mais agressiva. O outro aparentava nervosismo, medo. "Não somos bandidos. Queremos nos livrar disso o mais rápido possível", dizia.
Saímos cheios de dúvidas do encontro. Já no jornal, a direção decidiu que entraríamos imediatamente em contato com o ministro da Educação, Fernando Haddad, e que nada seria publicado até que houvesse uma confirmação de que a prova que tínhamos visto era verdadeira. Durante as 21horas e 0h30 falei cerca de 10 vezes com o ministro, que prontamente nos informou as providências que estavam sendo tomadas (procura pelos técnicos do Inep, abertura do cofre para identificar a prova etc). Ele foi informado das questões que eu tinha memorizado.
Pouco antes da 1h da manhã veio a confirmação de que o Enem seria cancelado. A prova que tive em mãos era verdadeira.
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